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Josefa d’Óbidos (1630 – 1684)

Nascida em Sevilha em 1630, veio para Portugal, país de onde era natural seu pai, o pintor Baltazar Gomes Figueira, tendo sido conduzida para o noviciado em Coimbra onde executa a sua primeira obra de arte conhecida – a representação de Santa Catarina (1646).

Não se adaptando à realidade do convento, Josefa instala-se em Óbidos e inicia uma intensa actividade na área da pintura, primeiro colaborando com seu pai e, depois, autonomamente, granjeando bastante fama nacional e internacional.

Sendo uma rara excepção à regra, quebrou muitos dos cânones de uma sociedade predominantemente masculina, estabelecendo-se profissionalmente como pintora. Não sendo a única mulher praticando esta actividade, Josefa foi, contudo, um expoente, já que, de facto, a sua atitude perante a pintura não era a de uma mera curiosa ou artífice, mas sim de uma verdadeira artista, com capacidades criativas, um apurado sentido estético e um forte domínio técnico.

O estudo da luz e dos contrastes que compõem a corrente proto-barroca de matriz peninsular, intimamente relacionada com a pintura sevilhana e madrilena, são marcas importantes no percurso e na definição artística de Josefa d’Óbidos, colhendo ensinamentos na observação de obras de grande vulto, ou directamente com os mestres, alguns deles ligados à sua própria família. Zurbarán, Francisco de Herrera, Valdez Leal, André Reinoso e o próprio pai, Baltazar Gomes Figueira, para além de mais remotamente Caravaggio, são nomes que se associam à sua aprendizagem artística. Contudo, se Josefa não supera alguns dos nomes mais importantes da pintura seiscentista peninsular, acrescenta-lhe seguramente uma nova tónica, onde o misticismo doloroso, algo violento e majestático dá lugar ao misticismo terno, tão bem representados nos Meninos Salvadores do Mundo, com as suas vestes translúcidas, rendadas e decoradas de pequenas jóias e flores, conferindo-lhe um carácter singelo; mas que também pode ser intimista no caso das telas que representam o Senhor da Cana Verde ou a Toalha de Verónica (na Misericórdia de Peniche). Esta ingenuidade aparente, que transforma as figuras sagradas em elementos algo irreais é, no entanto, contrariada em obras de grande qualidade técnica, surgindo naturezas-mortas e retratos de grande fidelidade. Note-se uma das maiores obras-primas da pintura portuguesa de Seiscentos, o Retrato do Beneficiado Faustino das Neves, actualmente patente no Museu Municipal.

Morreu em Óbidos, em 1684, com uma vasta obra produzida e espalhada pelo país e estrangeiro. Muitas das suas obras desapareceram com o tempo, com a mudança dos gostos artísticos e com o terramoto de 1755. Hoje a sua obra encontra-se dispersa em organismos do Estado (museus, embaixadas, etc.), em fundações, igrejas e em casas particulares.

O seu legado artístico tem vindo a merecer uma crescente atenção por parte dos historiadores de arte e museólogos, registada nas exposições da Academia Nacional de Belas-Artes (1942), no Museu de Arte Antiga de Lisboa (1949), em Óbidos, na Igreja de São Tiago (1959), na Galeria Ogiva (1971) e no Solar de Santa Maria (1984), na Galeria de Pintura do Rei D. Luís no Palácio da Ajuda (1992) e, mais recentemente, no National Museum of Womem in Arts de Washington e em Londres, no Instituto Italiano (1997), onde esteve patente, também, a presente obra.

(texto retirado no Catálogo do Museu Municipal de Óbidos)